Lembro-me perfeitamente. A primeira vez em que fui ao cinema foi para ver “O Rei Leão”. Talvez tenha sido em 1994 ou 1995, não tenho certeza. Eu tinha apenas 5 anos e meus pais levaram eu e minha irmã mais velha ao cinema da cidade vizinha, que tornou-se anos mais tarde num cinema pornô. Eu não havia gostado. Chorei numa das cenas finais e eles acabaram me levando pra casa, sem saber como o filme terminaria.
Já um pouco mais velho, no final dos anos 90 eu era um daqueles garotos feios e tachados na escola de nerd por uns e viado por outros. Eu me importava, e muito. Sempre fui muito sensível, e por isso, descontava toda minha frustração nos filmes. Era algo que me deixava feliz, simplesmente. Adorava filmes de aventura, romance, comédia e os desenhos animados da Disney. Ficava irritado quando não podia assistir a um certo filme por causa da censura. No começo minha mãe me acompanhava e eu adorava. Toda semana íamos religiosamente ao cinema. Não importava o que iríamos assistir, e sim, as horas que passaríamos fugindo da realidade.
Depois de uns anos passei a ir ao cinema sozinho. Era por puro prazer. Pegava a pequena fila para comprar o ingresso, esperava ansiosamente a entrada para a sala de exibição ser liberada, entrava e procurava o melhor lugar no meio da sala e por fim, contava os minutos no relógio até a sala escurecer e alguns jovens, possivelmente da mesma idade que eu, darem gritos insuportáveis. Pronto, a tela era iluminada e nada poderia tirar minha atenção.
Quando eu completei idade suficiente pra dar escapulidas até a capital eu aproveitei ao máximo. Ia escondido dos meus pais praticamente todo fim de semana que meu dinheiro poderia sustentar até os melhores cinemas. Filmes antigos, novos, clássicos, estrangeiros, nacionais. Tinha de tudo. Foi então que eu tive uma nova visão sobre o cinema.
Eu culpo os filmes por hoje eu ser um garoto de 19 anos extremamente sensível a tudo na vida.
“A terrível sensação de enfrentar a realidade após horas de prazer é a pior experiência do mundo”, disse certa vez Woody Allen. E é realmente horrendo você sair da sala de cinema com tanta emoção no coração e presenciar certos fatos. O barulho desnecessário da mãe impaciente gritando com a ameba do filho, as buzinas dos carros, propagandas políticas e todas as coisas que fazem a vida real ser insuportável. Acontece que eu sempre fui daqueles que, ao sair do cinema, colocava tempões nos ouvidos e um belo par de óculos escuros no rosto.
Foto: A Rosa Púrpura do Cairo (1985, Woody Allen)

