Arquivo para Agosto, 2008

Noite

Ontem, durante o trajeto de volta para casa, dentro do ônibus, pensei em tornar-me uma pessoa má. Ser um típico vilão, apenas por puro sadismo. Mas ao descer do ônibus, senti a presença da noite. Olhei então para o céu e logo desisti. Era tudo tão lindo.

Energia parte dois

Eu acredito em energia. Na verdade eu existo por causa dela. Digo daquela que não consigo ver, que vive dentro de mim. E eu acredito que ela é responsável pelo passado, presente e o futuro. Conto com ela pra tudo. As energias boas, é claro, pois também há as ruins. E essas eu quero bem longe de mim. Jogo sobre as boas energias uma grande responsabilidade: de fazer com que eu sinta cada pedaço de vida dentro de mim.

Paz

Sinto-me culpado. Hoje matei aula para ler. Sim! Para ler. É que me sinto tão imerso no livro em que estou lendo que não podia perder tempo. Cada momento de luz, veja bem, não deveria ser jogado fora. Então, tinha que ler. Fui obrigado. Do mesmo jeito sinto-me culpado.

Matei aula para ler no banco da praça. Acendi um cigarro e mergulhei por inteiro nos contos de uma senhora que faz-me sentir presente no espaço. Vivo. Bem vivo. Sentia o frio da noite mais intensamente ao ler cada palavra que estava escrita. Depois de algumas páginas levantei-me e fui em direção a igreja. Queria ver se ela estava aberta. Eu estava me sentindo em perfeita paz de espírito naquele momento e queria então, visitá-la. Havia entrado naquela igreja apenas uma vez, e fora numa vez extremamente especial, quando um amigo que admiro muito veio visitar-me. Por falar nisso, sinto saudades dele. Espero um dia encontrá-lo novamente e poder dizer todos meus sentimentos.

Infelizmente a igreja estava fechada. Fiquei extremamente desapontado. Fui então para debaixo de uma árvore, pois achei ali um lugar tranquilo e de certo modo, espiritual. Continuei a ler.

Por algumas horas eu tive a certeza de que estava realmente vivo. E feliz.

Heaven. I’m in heaven…

Mesmo sentindo-se inútil, ele ainda admirava o céu. Para aquele desafortunado jovem, o céu era tudo que lhe restara. “Como é incrível! Não há nada tão incrível quanto o céu.”, ele costumava dizer. Para ele não havia mais sentido para as coisas. Por ser jovem ele carregava um grande peso em suas costas. Não sabia o que fazer de sua vida. Sentia-se tão inseguro sobre todas as coisas a sua volta, sobre suas próprias opiniões. Ele pensava que, a única coisa que o mantinha vivo era simplesmente, o céu.

Ele sentia-se como uma nuvem. As vezes, quando olhamos para o céu, vemos uma nuvem grande, poderosa. Após algum tempo, com o movimento dos ventos, ela muda e se desfaz. Assim era o jovem. Havia momentos em que ele sentia-se poderoso, grande. Sentia-se como se conseguisse achar uma saída de um beco. Mas de uma hora pra outra, tudo parecia ilusão, e ele voltava a ser algo que não era nada. A nuvem espalhou-se e tornou-se pequenos pedaços, aqui e ali.

Era angustiante. Queria ele poder continuar admirando o céu, em todos as direções. Queria ele poder fazer parte dele.

Nostalgia em cinemascope

Lembro-me perfeitamente. A primeira vez em que fui ao cinema foi para ver “O Rei Leão”. Talvez tenha sido em 1994 ou 1995, não tenho certeza. Eu tinha apenas 5 anos e meus pais levaram eu e minha irmã mais velha ao cinema da cidade vizinha, que tornou-se anos mais tarde num cinema pornô. Eu não havia gostado. Chorei numa das cenas finais e eles acabaram me levando pra casa, sem saber como o filme terminaria.

Já um pouco mais velho, no final dos anos 90 eu era um daqueles garotos feios e tachados na escola de nerd por uns e viado por outros. Eu me importava, e muito. Sempre fui muito sensível, e por isso, descontava toda minha frustração nos filmes. Era algo que me deixava feliz, simplesmente. Adorava filmes de aventura, romance, comédia e os desenhos animados da Disney. Ficava irritado quando não podia assistir a um certo filme por causa da censura. No começo minha mãe me acompanhava e eu adorava. Toda semana íamos religiosamente ao cinema. Não importava o que iríamos assistir, e sim, as horas que passaríamos fugindo da realidade.

Depois de uns anos passei a ir ao cinema sozinho. Era por puro prazer. Pegava a pequena fila para comprar o ingresso, esperava ansiosamente a entrada para a sala de exibição ser liberada, entrava e procurava o melhor lugar no meio da sala e por fim, contava os minutos no relógio até a sala escurecer e alguns jovens, possivelmente da mesma idade que eu, darem gritos insuportáveis. Pronto, a tela era iluminada e nada poderia tirar minha atenção.

Quando eu completei idade suficiente pra dar escapulidas até a capital eu aproveitei ao máximo. Ia escondido dos meus pais praticamente todo fim de semana que meu dinheiro poderia sustentar até os melhores cinemas. Filmes antigos, novos, clássicos, estrangeiros, nacionais. Tinha de tudo. Foi então que eu tive uma nova visão sobre o cinema.

Eu culpo os filmes por hoje eu ser um garoto de 19 anos extremamente sensível a tudo na vida.

“A terrível sensação de enfrentar a realidade após horas de prazer é a pior experiência do mundo”, disse certa vez Woody Allen. E é realmente horrendo você sair da sala de cinema com tanta emoção no coração e presenciar certos fatos. O barulho desnecessário da mãe impaciente gritando com a ameba do filho, as buzinas dos carros, propagandas políticas e todas as coisas que fazem a vida real ser insuportável. Acontece que eu sempre fui daqueles que, ao sair do cinema, colocava tempões nos ouvidos e um belo par de óculos escuros no rosto.

Foto: A Rosa Púrpura do Cairo (1985, Woody Allen)


Virginia Woolf

A beleza do mundo tem duas margens, uma do riso e outra da angústia, que cortam o coração em duas metades.

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