Hoje quando acordei, senti que precisava contar uma história. Não sei qual, mas queria contar. Qualquer uma. Uma história sincera, real e fictícia. Verdadeira, ou cheia de absurdos. Mas ela tinha que existir. Então agora eu começo. Tento. Me disseram que era essencial tentar, começar. O tentar. Tentar me expressar. Pois eu disse que não sabia me expressar, mas que tentar eu sabia. E eu sabia que, por mais difícil que poderia ser, alguma coisa iria ser registrada nessas palavras.
O primeiro passo é acender um cigarro. Mas na verdade ligo a música. Pois é essencial que meus sentidos sejam influenciados por algum som musical. Aí sim vem o cigarro, que intensifica a recepção. A criatividade pode acontecer, mas ela é consequência da minha’alma.
Penso. Procuro uma situação. Um personagem. Um cenário. Uma lembrança, talvez. Prefiro procurar aquela lembrança fictícia, que lá no fundo, é a completa verdade de meu ser, de minha história. Uma lembrança qualquer, que sonho um dia acontecer, mas que talvez seria melhor permanecer lá.
A voz que escuto, que me acalma. As batidas da percussão de uma música que inunda meus ouvidos de uma emoção, que transborda pelos poros. Aí eu sinto que estou chegando onde queria, ou imaginava, ou quem sabe nem sonhava. A surpresa. A minha sensibilidade é minha. Só-mente-minha.
Eu descanso. Olho uma paisagem inexistente na janela e procuro por algum personagem. Procuro uma inspiração. Uma expiração. Finjo encontrar e transformo essa mentira em fantasia. Daí eu fecho os olhos e mergulho em tudo isso. Me afogo. Engulo água, engasgo, esperando ser socorrido. É bom demais.
Estou descansado. Me sinto pronto para minha realidade. Talvez não. Talvez estou onde queria exatamente estar.



